F. C. BARCELONA DE JOSEP GUARDIOLA (2008-2012) - PARTE 2 - A CULTURA DE JOGO

F. C. BARCELONA DE JOSEP GUARDIOLA (2008-2012) - PARTE 2 - A CULTURA DE JOGO

15/05/13

* Actualizado a 17/10/2013

Damos continuidade, neste post, ao capítulo dedicado ao Barcelona de Josep Guardiola. O segundo sub-capítulo procura expor, pelas opiniões de outros autores, de forma geral e simplificada os grandes comportamentos colectivos que estruturaram a equipa e consubstanciaram a sua forma de jogar.


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        • F. C. Barcelona de Josep Guardiola (2008-2012)
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            • "Abertos de profundos"
            • "Sair jogando"
            • "Defesa subida"
            • "Pressão alta"
            • "Posse 74"

"O Barcelona passa a bola rápido como o meu pai me dizia que o Brasil fazia antigamente”.
(Pep Guardiola, 2011) citado por (Junior, 2011)
 
"Acho que o nosso segredo é a simplicidade com que os jogadores entendem o Futebol. Quanto mais simples, mais efectivo. É isso que o Guardiola nos diz. E no final toda a gente admira o trabalho do Barcelona.”
Daniel Alves citado por (Bouças, 2011)
 
Segundo (Manna, 2011), em tempos de seca, a água apareceu. É potenciado o 4:4:2 em linha, a entrega da iniciativa, a pressa em terminar as jogadas, correr mais que pensar. Impedir, destruir, eram verbos que ganhavam. Mas não seduziam. Muitos ganhavam assim e outros copiavam. É mais fácil copiar a Itália campeã do mundo de 2006 do que a Espanha em 2010”.


O jogador (Xavi Hernandez, 2011) citado por (Esteves, 2011), confessa ser um “romântico”. Xavi afirma que gosta que “o talento, a habilidade técnica, é mais valorizada do que a condição física agora. Fico feliz que essa é a prioridade; se não fosse, não seria o mesmo espectáculo. O Futebol é jogado para vencer, mas a nossa satisfação é dupla. Outras equipas vencem e estão felizes, mas não é o mesmo. A identidade está faltando. O resultado é um impostor no Futebol. Você pode fazer coisas muito, muito bem - no ano passado estávamos melhor do que a Inter de Milão -, mas não vencemos. Há algo maior do que o resultado, mais duradouro. Um legado”.

Para Cesc Fabregas citado por (Bouças, 2011), os treinos do Barcelona de Guardiola são “a coisa mais bonita que viu na vida. Só se ouve a bola. Tac, tac, tac... A pressão... Jamais vi treinos deste nível. O dia-a-dia dos treinos é melhor que os jogos, nunca vi nada parecido”.

O treinador alemão (Klopp, 2013), descreve que era um adepto do “balé branco”, do Real Madrid há alguns anos atrás. Depois terá pensado: “Se a esse potencial futebolístico, somarmos um plano defensivo, convertê-lo-ia na equipa perfeita". E foi o que fez o Barcelona”. O técnico espanhol (Rexach, 2011) sublinha a ideia, explicando que o Barcelona de Guardiola foi uma “sublimação” do Barcelona de Cruyff, “esta equipa defende muito bem e nós defendíamos pior. Porém agora encontram uma vantagem: os jovens que sobem da formação e quem chega de novo já sabe como tem de jogar, nós praticamente tínhamos que ensinar tudo. Na altura tivemos mais problemas em ensinar alguns jogadores pois é mais fácil quando se trabalha de base”. O treinador português (Villas-Boas, 2009) reforça a ideia, explicando que hoje “temos um Barça que é uma referência mundial. O Barça faz campo grande, faz saída curta pelos centrais e os laterais projectados, porque já o faz a 20 anos atrás... já o fazia, automaticamente quem chega ao Barça os laterais sabem que têm esse tipo de responsabilidade, há automatismos criados para isso, há o conforto da posse de bola, há jogadores criteriosos na posse de bola... há jogadores tecnicamente fantásticos e eles automaticamente... isto já é uma cultura e quem chega ao Barça sabe que é assim, que é assim que constróis curto...”
O autor (Manna, 2011)acrescenta que o “contexto do país (Catalunha) tem muito a ver com isto. É mais que um clube, é um clube com grande identidade ao nível social. Isso gera mais laços. Os miúdos da Catalunha querem jogar no Barcelona, é o seu clube e representa a ideia de nação Catalunha. É uma identidade muito forte e que ajuda o sistema e ideias conceptuais que J. Cruyff e Carles Rexach instauraram na década de 90. O Barcelona disse a si mesmo: vamos jogar de determinada maneira. Antes vieram Venables, Menotti, e modificaram as ideias de jogo. Veio Cruyff e disse: seguiremos desta forma. Faz 30 anos que jogam assim, as pessoas no estádio pretendem que esta ideia se desenvolva em campo. Não quer outra, quer essa. Guardiola sente-o assim, e segundo Cruyff era a última esperança, por volta de 2001, quando Guardiola persistia no clube. A única esperança de voltar a entender globalmente esse cúmulo de convicções futebolísticas. Por sorte regressado ao clube e voltamos a ver essas ideias no relvado”. O director de formação do Barcelona Albert Puig, citado por (Paralvas, 2011) explica que “tudo começou com Rinus Michels e prosseguiu com Johan Cruyff. O modelo em campo é o 4:3:3, mas é muito mais do que isso: «É amar a bola, acariciá-la»".

Ilustração 235 - Johan Cruyff dando indicações a Josep Guardiola, que mais tarde tornou-se treinador do Barcelona seguindo a mesma filosofia de jogo do treinador Holandês, fonte www.zonalmarking.net.

De acordo com (Manna, 2011), define a filosofia do F. C. Barcelona “como uma maneira de sentir uma actividade como o Futebol, porém também manifesta uma maneira de compreender a própria vida. Estruturar um clube determina muitas vezes de que forma querem viver as pessoas. É um local onde se aprende a viver com o companheiro, se aprende a viver em sociedade e ainda bem que há gente que pode sistematizar esta ideia e estrutura-la numa instituição modelo como é o Barcelona”.

O autor (Pascual, 2013) descreve que o Barcelona de Guardiola trouxe “a temporização de Xavi, as desmarcações (de ruptura com Villa a aparecer por trás da defesa para receber o passe de Iniesta, e de apoio, com Messi a juntar-se a Xavi e Iniesta garantindo um três contra dois), vimos apoios, com Busquets a aparecer e encaixar entre os Defesas-Centrais para a saída da bola, vimos conservação da bola (como nunca!), e vimos mudanças de corredor (da direita à esquerda e vice-versa) e espaços livres e tabelas (centenas delas). E isto no ataque. Na defesa vimos o pressing (e que pressing!), as coberturas e permutas entre Alves e Pedro e entre Piqué e Puyol, vimos a antecipação e, em conjunto com ela, a intercepção (quantas bolas por partida se roubaram?). E a temporização (também a defensiva). Vimos cargas e entradas (Mascherano, Keita ou Yaya Touré realizando carrinhos foi um clássico)”. O autor conclui que “vimos tudo isso naquela equipa. E muitas coisas mais. Tudo o que acabo de descrever são princípios do futebol. Dos que explicam os livros dos cursos de treinadores em Espanha”.

Segundo Santi Nolla, no El Mundo Deportivo, citado por (Moreno, 2009), “a equipa de Guardiola combina a posse de bola com a pressão. Ou a temos ou morremos por tê-la, essas são algumas das suas máximas”. Nesta linha, o argentino (Aimar, 2013), destaca o Barcelona,“sobretudo por ter demonstrado ao mundo o prazer que é possível ter com uma bola nos pés. Se tivermos a bola, o adversário não a tem. E não só por isso. Se perdem a posse, recuperam na perfeição a posição defensiva e recuperam a bola com facilidade”..Para (Amieiro, 2009), “falar de Táctica é falar de intenções e de interacções e, neste sentido, o jogar do Barça mostrou (e tem vindo a mostrar, por vezes de forma excepcional) maior riqueza e complexidade Táctica. Foi, por isso, aos meus olhos, muito mais táctico do que o do Chelsea. Basta ver o modo como a equipa responde, perto e longe da bola, à progressão com bola de Piqué pelo corredor central. Ou o modo como ocupa o espaço a atacar e faz a bola circular. Ou o modo como “acampa” no último terço e mete a bola a correr, rente à relva, na procura do espaço e do momento certo para tentar finalizar. Ou o modo como recusa cair na tentação do pontapé longo ou do cruzamento cego para dentro do “aquário”. Ou o modo como responde à perda da posse de bola e, desse modo, poucas vezes é obrigado a “desmontar as tendas”. Tudo isto revela critérios. Tudo isto é construção (Táctica) do treinador”.

O autor (Amado, 2009), salienta que “o erro crasso é acreditar que falta músculo a este Barcelona. É evidente que, em termos atléticos, esta equipa não é tão capaz como as grandes equipas europeias, mas o erro está em presumir que uma equipa de sucesso, no Futebol actual, necessita impreterivelmente dos melhores atletas, no sentido em que estou a utilizar o termo. A musculatura desta equipa existe, ao contrário do que se pensa, embora seja de outra ordem”.O autor vai mais longe e defende que “é verdade que este Barcelona é tudo isto com que o caracterizam. Mas nenhuma dessas características tem necessariamente de ser um defeito. E esta é a grande lição de Guardiola. Numa altura em que, muitos pensam, se parece caminhar para um desporto cada vez mais musculado, no qual a força física e as capacidades atléticas são decisivas, este Barcelona vem deitar por terra essa ideia. O bom Futebol, o melhor Futebol, é aquele que é jogado com a cabeça, aquele que dá preferência aos atributos intelectuais. O Futebol de hoje é um jogo de pouco espaço. Para muitos, tendo em conta essa evidência, os jogadores mais aptos serão, portanto, os mais rápidos, os tecnicamente mais evoluídos e os mais fortes. Se há coisa que este Barcelona vem provar é que isso, em rigor, não tem de ser assim. Os mais aptos são os mais inteligentes, os que decidem mais rapidamente, os que conseguem "fabricar espaços", os que possuem maiores índices de criatividade, etc.

Ainda (Amado, 2009), explica as ideias do Barcelona, sustentando que “é inegável que esta equipa joga um bom Futebol, mas a sua grandeza não se esgota aí. Mais do que uma excelente ilustração de bom Futebol, trata-se de uma verdadeira lição teórica sobre o jogo. Por trás desta equipa está um conceito que vem quebrar não só com muitos dos paradigmas actuais como também vem contradizer ideias e conceitos que, ao longo do tempo, foram elevados ao estatuto de dogma. Enquanto grande parte dos treinadores diz aos seus laterais para nunca jogar no meio, pois é mais arriscado do que jogar em profundidade na linha, este Barcelona postula o contrário. Os laterais devem jogar no meio, porque é no meio que a possibilidade de criação de apoios é maior e porque é regressando ao meio que as possibilidades de escapar ao “pressing” do adversário aumentam. Enquanto grande parte dos treinadores diz aos seus jogadores para não saírem a jogar caso o adversário pressione muito alto, pois é perigoso, este Barcelona não o admite, seja em que situação for. Um excelente exemplo desta “teimosia” foi a final da Taça do Rei. O Athletic de Bilbao optou, sobretudo depois de se encontrar a perder, por pressionar altíssimo, aquando dos pontapés de baliza do Barcelona. A ideia era fazer com que os defesas catalães não tivessem espaço para receber a bola e obrigá-los a jogar a contragosto, com saídas com pontapés longos. O Barcelona não fez caso disto e, ainda que a grande maioria dos treinadores desaconselhasse a sua equipa a sair a jogar nessas condições, saiu sempre a jogar. Com o auxílio dos laterais e do médio-defensivo, que baixou para servir de apoio, a equipa trocava assim a bola dentro da própria grande área, utilizando toda a largura do campo para criar linhas de passe, até que esta chegasse a uma das linhas. Nessa altura, um médio ou o extremo baixava para servir de apoio vertical e, recebendo a bola do lateral, entregava-a de imediato no médio-defensivo, ficando concluída a saída de bola. Alternadamente, dependendo da forma como o adversário pressionava, saíam também pelo meio, depois de conseguirem puxar os adversários para uma faixa e fazendo regressar a bola rapidamente aos centrais. O que é certo é que nunca desvirtuaram a sua maneira de jogar, mesmo correndo riscos tão elevados. Enquanto grande parte dos treinadores diz que não quer "rodriguinhos", que a equipa tem de ser objectiva, que um passe para trás só se faz em caso de aperto e que uma ideia de progressão deve estar sempre presente quando uma equipa troca a bola, este Barcelona vem dizer que isto não é bem assim e que nem sempre é para a frente que se joga, que a objectividade, quando excessiva, se transforma em previsibilidadeEste Barcelona, como joga, torna-se difícil de parar porque nunca se sabe por onde vai entrar, porque o seu Futebol não se limita a fazer o mais simples, o mais objectivo, sendo, pelo contrário, complexo e imaginativo. Enquanto grande parte dos treinadores diz aos seus jogadores que qualquer nesga para chutar à baliza deve ser aproveitada, este Barcelona refuta essa velha máxima e Guardiola já disse mesmo que prefere que os seus jogadores, mesmo dentro da grande área, troquem a bola em vez de chutar à baliza. A ideia é concluir o lance apenas quando as possibilidades de êxito são consideravelmente boas.” O autor conclui quepor tudo isto, este Barcelona, mais do que uma equipa que pratica um Futebol agradável, mais do que uma rara excepção de sucesso com armas diferentes, mais do que um exemplo de bom Futebol, fundamenta-se na destruição de predicados ancestrais. Representa uma autêntica reformulação teórica do jogo. E é algo que, perdurando, pode contribuir para modificar a mentalidade que, nos dias que correm, domina o jogo”.

Segundo (Jorge D., 2012), “por mais que queiramos espremer o Jogo dos Catalães não conseguimos, simplesmente porque ele nunca é igual (apesar de se conseguir generalizar a forma como jogam), visto que nenhum tipo de movimento é padronizado / mecanizado,  é jogado como na rua (apenas de um modo mais evoluído), mas sempre almejando um binómio … “Enganar – Controlar”!”.

A propósito do sistema táctico utilizado por Guardiola, (Amado, 2012) sustenta que “se há coisa que caracterizou o 433 de Guardiola foi a sua absoluta elasticidade. Os extremos não eram extremos. Raramente eram eles quem dava profundidade e raramente tinham movimentos verticais. Muitas vezes, eram até médios por vocação quem jogava na posição de extremo, precisamente por causa dos movimentos interiores. O avançado também não era avançado, e, se quisermos, os médios não eram médios. Do meio-campo para a frente, havendo referências para cobertura e apoios, havia uma elasticidade tal que a equipa não obedecia a padrões de comportamento convencionais. Por elasticidade não se deve entender, no entanto, liberdade. Os jogadores, não estando presos a posições rígidas, não tinham também liberdade para tudo e mais alguma coisa. Aquilo que tinham era liberdade para esticar o desenho, para lhe conferir elasticidade e imprevisibilidade”.

Baseado em (Manna, 2009) e reforçado por outras opiniões, a organização do Barcelona de Guardiola assenta nos seguintes princípios de jogo:

Abertos e profundos”

De acordo com (Manna, 2009), o princípio sustenta o “atacar aproveitando toda a largura no meio campo contrário. Atacar com profundidade com jogadores abertos nos corredores laterais que possam criar superioridade através do 1x1”. Guardiola acrescenta que o Futebol começa nos extremos e que desde o desaparecimento de jogadores como Garrincha ou Overmars não há verdadeiros extremos, capazes de explorar a linha lateral.

Sair jogando”

Segundo (Manna, 2009), “sair jogando é dar prioridade ao passe desde o início da construção de jogo. O pontapé de baliza ou a participação dos defesas na construção ofensiva devem garanti-lo. Uma perda de bola na zona dos defesas centrais pode ser terrível. Todos evitam realizar o que Pep dá prioridade. Riscos que permitem, facilitar o ciclo de jogo que Pep irá sempre tentar construir desde a sua baliza”. Guardiola sublinha que saindo a jogar bem, podemos chegar ao alvo jogando bem, ao contrário de um mau início de construção que torna tudo mais difícil e aleatório. E lembra que se o primeiro passe é bom, tudo é mais fácil a seguir. Nesta lógica, (Tactic Zone, 2013) descreve que o Barcelona de Guardiola progride com os jogadores a conduzirem a bola e a provocarem os adversários para estes saírem das suas posições de contenção. A mesma fonte questiona se “as outras equipas/treinadores não cumprem com este princípio?” e responde: “sim, as boas equipas/treinadores sabem fazer isto. A diferença é que com Guardiola começa-se a fazer isto com os centrais”. Os autores concluem que este é “um pormenor mas que faz toda a diferença. Pensa-se que o jogo tem que ser muito complicado. Mas ideias e processos simples podem fazem toda a diferença. Enquanto a maioria acreditava que fazer posse era circular, circular e circular até o adversário abrir espaços (vê-se equipas a circular imenso entre os 4 defesas sem conseguir progredir) com Guardiola, alterou-se esse paradigma: provocar e soltar, provocar e soltar, constantemente!”

Defesa subida”

O autor (Manna, 2009), descreve que o princípio sustenta “defender à frente, invadindo o território possível do adversário, provocar o fora-de-jogo a metros da linha de meio-campo, afogar zonalmente o adversário, juntar linhas, acompanhar o ataque desde a defesa”. Guardiola, citado por (Manna, 2009), lembra que “atacaremos melhor se tivermos uma boa defesa e defenderemos melhor se tivermos um bom ataque”. E explica que “um defesa pode ser bom noutra equipa, mas no Barcelona, encontrar-se-á na maioria das vezes com 30 metros vazios nas suas costas”.

Pressão alta”

De acordo com (Manna, 2009), “é pensar o jogo no meio campo adversário, recuperar a bola o mais depressa possível para ser protagonista do jogo e para construir com mais tempo jogadas ofensivas, afogando a saída de jogo do adversário”. Guardiola, citado por (Manna, 2009), acrescenta que é “querer jogar no meio campo contrário, dizendo aos adversários que vamos aí, que vamos tomar a iniciativa e essa é a chave de tudo”. Guardiola pensa que o maior êxito do Barcelona “é que todos querem recuperar a bola. Quando não a temos, há que recuperá-la, pois precisamos dela”.

Para (Gomes, 2011), o Barcelona ao perder a posse procura recuperar a bola através dos jogadores mais próximos (normalmente estão vários perto da bola) e no caso de não o conseguir, recuam para a tentar recuperar. Quando isso acontece procura ter a bola dando-lhe segurança e imprimindo-lhe velocidade no primeiro toque. O que se caracteriza pelo jogador com bola desacelerar ou parar para fazer a bola correr, em função das condições proporcionadas pelos colegas”.
 
Posse 74”

Ilustração 246 - Posse de bola e passes completados no jogo Real Madrid x Barcelona de 2012, (Pielke, 2012).


Ilustração 236 - Posse de bola e eficácia de passe do Barcelona de Guardiola (2009-2012), passando pelo de Tito Vilanova (2012/2013), terminando no Barcelona de Gerardo Martino (2013/2014), (zonalmarking, 2013).

Para (Manna, 2009), este princípio defende que “é a ter a bola para dominar o jogo e para organizar uma equipa. Quantos mais toques mais condições para os seus jogadores. Quanto mais rápidos são esses passes, mais rápido se cansa o adversário. Para Pep, a percentagem de posse de bola da sua equipa deverá superar os 70%. Elegemos o 74, como símbolo daquela Holanda do Mundial de 74 que pode exibir ao mundo o conceito de se organizar através da posse de bola”. Segundo (Paulo Falcão, 2011), citado por (Esteves, 2011), “estamos presenciando outra revolução, protagonizada pelo Barcelona do técnico Joseph Guardiola e que pode ser resumida também em duas palavras: Posse Total”. (Manna, 2011) explica ainda que o conceito de “Posse 74 é que através da bola se organiza a equipa. Através de uma grande posse de bola (muitas vezes o Barcelona termina a partida com percentagens na ordem dos 74% de posse) e também através de um excelente posicionamento dos seus jogadores. O jogo posicional é fundamental. A posse 74, em relação à Holanda de 1974, mãe deste entendimento do Futebol”.

Segundo (Gomes, 2012), o Barcelona tem a bola através de uma posse segura (sem arriscar a sua perda), dinâmica (fazendo-a correr sempre) e diversa (por todo o terreno). O valor da bola para o Barcelona é ENORME porque jogam para ter a sua posse fazendo com que a exploração de espaços se faça com a bola, com os apoios constantes e com uma prioridade fundamental: sem pressa para a perder. Compreender o Barcelona é compreender o seu valor pela posse pois é através dela que faz com que tenha a bola no último terço e não tenha pressa em a meter no espaço, em rematar quando todos estão a pedir “Chuta!”. Se realmente o Messi chutasse mais vezes de longe no último terço, se o Xavi e o Alexis o fizessem não veríamos um Barcelona preOCUPADO em explorar o último terço com a entrada dos jogadores à frente do guarda-redes, em realizar o passe no timing acertado para a bola passar, em fazer com que os seus jogadores sem bola tenham protagonismo em detrimento do espaço ou da baliza. Isto é ser Barcelona! Deste modo sabemos que a posse da bola de muitas equipas não se iguala (nem compara) ao Barcelona porque não se trata de ter em média cerca de 60% da posse da bola durante os jogos que realiza, mas do modo como o fazem - com e sem pressão, nas zonas mais recuadas e mais adiantadas.”

A equipa de Guardiola conseguiu, regularmente, tempos de posse de bola incríveis. Dos 60 aos 75% em média, o que se torna assombroso, não é exactamente a posse de bola mas as suas consequências: o adversário não tem oportunidade de atacar e dos poucos momentos que tem a bola ela parece que «queima». O autor (Amado, 2011) confirma a ideia referindo que, “nenhuma outra equipa, na História do Futebol, conseguiu números de posse de bola sequer semelhantes a estes. E é por isso que nenhuma equipa na História foi tão claramente superior aos adversários como este Barcelona. Estes números incríveis, incomensuravelmente diferentes de quaisquer outros números até hoje vistos, são a causa principal da grande diferença que separa esta equipa de qualquer outra. Dizê-lo não é, como pode parecer, sustentar que a única causa desta supremacia é o que o Barcelona faz com a bola. Pelo contrário, é dizer que o que fazem com a bola está intimamente ligada a tudo o resto. Se o pressing não fosse extraordinário, se o colectivo não estivesse bem mecanizado e os jogadores não pensassem da mesma maneira, se a preservação da posse de bola não fosse o principal critério, deste a pequena área defensiva até à área adversária, se não houvesse competências técnicas e intelectuais extraordinárias em cada um destes jogadores, se a capacidade de decisão não fosse alta, esta quantidade de posse de bola não seria possível. A posse de bola é o retrato fisionómico deste Barcelona, e são os números avassaladores dessa posse de bola que mais e melhor definem o fosso que separa esta equipa das restantes equipas que praticam esta modalidade, a mesma apenas por força das circunstâncias”.

Para (Amado, 2011) aquilo que o Barcelona de Guardiola tem de mais revolucionário não passa por uma dinâmica de “um sistema táctico sem avançados, nem com um modelo de jogo semelhante a um carrossel, mas sim com uma certa arte de atacar. Tal como me parece que a equipa usa a bola como um engodo, para puxar os adversários para onde deseja e para arranjar os espaços que pretende, parece-me que usa igualmente a desmarcação como engodo, para sugerir linhas de passe que não utiliza e para levar adversários a tentar antecipações que não ocorrerão. Ao fazê-lo, causa necessariamente a ilusão de que os seus jogadores se movimentam sem lei, como se não tivessem posições, e de que a dinâmica da equipa assenta nessa desordem. Ora, a desordem é apenas aparente, e serve para levar as defesas adversárias a desorganizarem-se. O Barcelona é organizadíssimo”.

De acordo com o jornalista Fernando Polo, em artigo no diário Mundo Deportivo, citado por (Junior, 2012), “a base do jogo do Barça é a posse da bola, que desgasta o adversário e é a melhor forma de se defender. Uma posse hipnótica baseada na grande qualidade dos jogadores de Guardiola para passar e passar a bola sem que a percam. E quando o adversário está desconcentrado, o golpe: uma mudança no jogo, um passe interior letal, ou uma acção individual dos craques, de forma a dar a machadada final e obter o golo”. 

Na opinião de (Gonçalo, 2012), “a diferença que o Futebol de Guardiola ostenta em relação a toda e qualquer abordagem jamais feita assenta, se não em absoluto, pelo menos em grande parte, neste aspecto: um respeito inefável pela posse de bolaA bola é o centro de todas as decisões, é a constante que permite ao jogar do Barcelona edificar a sua maior vitória: a obtenção de uma consciência, o construir de uma verdadeira identidade colectiva. Todas as decisões, movimentos, a própria disposição da estrutura, etc., enfim, todos os aspectos do jogar de Guardiola, incutem a cada elemento do seu conjunto a consciência do valor determinante da posse da bola, incomparável a qualquer outro aspecto do jogo. A invariância deste sentimento, perante algo que é intrínseco ao próprio Futebol, a bola, permite-lhes alcançar uma perspectiva ubíqua, obrigando-os (aos jogadores, e ao próprio treinador) a abordar cada nova circunstância do jogo, cada contingência do mesmo, com uma grande coerência e respeito pelos tempos e momentos de jogo que se sucedem”. O autor conclui que“associando esta peculiaridade a um Reconhecimento Inteiro do Jogo, assistimos ao nascimento de uma identidade verdadeiramente colectiva, algo que até aos dias de hoje é inédito”.

Reforçando as evidências deste princípio (Amado, 2012), descreve nunca ter visto “o guarda-redes de uma equipa realizar mais passes do que a maioria dos jogadores adversários, nem nunca tinha visto um só jogador ter mais passes completados que a equipa adversária inteira (ainda na recente meia-final da Liga dos Campeões com o Chelsea, no jogo da segunda mão, Xavi fez mais passes do que toda a equipa inglesa)”. O mesmo autor destaca ainda, nunca ter visto “uma equipa marcar tantos golos através de combinações colectivas, nem nunca tinha visto uma equipa funcionar de modo tão exemplar que propiciasse ao seu melhor jogador a possibilidade marcar mais de 70 golos, em jogos oficiais, numa só época”.

Após a saída de Guardiola da equipa técnica do Barcelona, a equipa procurou manter princípios de jogo similares, priorizando a posse de bola. De acordo com (Gonçalves, 2013), em Abril de 2013 “frente ao Zaragoza, o Barcelona chegou ao 300º jogo oficial consecutivo com mais posse de bola que o adversário, uma série que começou na temporada 2007/2008, na penúltima jornada do campeonato dessa época. Desde 11 de maio de 2008, dia em que o Barcelona foi derrotado em casa pelo Mallorca por 3x2, segundo dados lançados pelo ESPN.com.br, os catalães acabaram os jogos sempre com mais posse de bola que o opositor, situação que começou com Frank Rijkaard e que continuou com Pep Guardiola, Tito Vilanova e Jordi Roura, que durante alguns jogos também comandou a equipa. Esta época, curiosamente também num jogo que terminou em derrota para o Barcelona, o conjunto espanhol conseguiu a percentagem de posse de bola mais elevada desta série: 89 por cento. Foi em Glasgow, diante do Celtic, em partida a contar para a fase de grupos da Liga dos Campeões. Em jeito de curiosidade, o Real Madrid foi a última equipa a conseguir terminar um jogo com mais posse de bola do que o Barcelona. Foi em 2007/2008, quando os merengues receberam e venceram os catalães por 4x1, acabando a partida com 50,5 por cento de posse de bola”.
 
Ilustração 237 – Comparação da caracterização do passe do Barcelona com o Chelsea no jogo das meias finais da Liga dos Campeões de 2012, (FourFourTwo.com, 2012).
 
Ilustração 238 - Comparação da caracterização do passe de Xavi Hernández com o passe de toda a equipa do Chelsea no jogo das meias finais da Liga dos Campeões de 2012, (FourFourTwo.com, 2012).

O treinador (Villas-Boas, 2009), defende que “há muitos jogadores que não têm entendimento do jogo... não conseguem ler o jogo... penso que as coisas se tornaram para o jogador demasiado fáceis... os salários são altos, a vida é boa, vivem ali 5h, o máximo, dentro do clube chegam às 8h saem às 5h da tarde... e portanto, chegam ao jogo não têm capacidade de concentração, não têm capacidade de pensar o jogo, não têm capacidade de ler o jogo, a vida neste momento está tão facilitada que depois chegam à hora do jogo e não têm entendimento de jogo, não sabem o que é uma provocação à bola, não sabem defender os espaços, não sabem ler os espaços... e este Barça neste momento é exactamente tudo o contrário, é jogadores que estão em constante pensamento, pensam no gesto técnico, pensam no movimento, sabem que conseguem chamar um adversário só com a posição da bola... tenta ver o Barça novamente e vais ver que encontras esse tipo de dinâmica”.


A selecção Espanhola sagrou-se campeã do Mundo de Futebol em 2010 na África do Sul. A grande responsabilidade pelo feito vai para a filosofia de jogo do Barcelona que influenciou uma equipa nacional constituída por vários jogadores do clube. Apesar de algumas diferenças relevantes das duas formas de jogar, o privilégio pela posse de bola, pelo Futebol ofensivo continua na sua essência. O autor (Amado, 2010), parece concordar ao afirmar que “o estilo da Espanha é, ainda assim, a principal bandeira desta equipa. E se os espanhóis se sagrarem campeões do mundo, será porventura a vitória conceptual mais importante desde o início do século. O que os espanhóis têm mostrado ao mundo é que este estilo, este jogar para o lado e para trás, este brincar à rabia com os adversários, o ter e querer sempre a bola, a certeza do passe, a profusão de tabelas, o jogo de apoios e pelo centro do terreno é o modo mais eficaz de ser superior a qualquer adversário. Este estilo, ainda que somente o estilo, mesmo faltando toda a mecanização e entrosamento entre jogadores, mesmo faltando limar os mais diversos detalhes, é assim o primeiríssimo e mais importante princípio que uma equipa de topo deve ter. Os espanhóis, sem serem colectivamente uma equipa bem trabalhada, gozam do facto de terem jogadores que preferem jogar neste estilo. E essa preferência faz deles, quando juntos, o mais forte conjunto em prova.” 

Para (Esteves, 2011), referindo-se à dimensão estratégica do jogo, o “FC Barcelona não parece ter essa preocupação, sabem os pontos fortes do adversário, lógico, não consigo ver uma equipa de top sem esse elemento, mas, acredito que a crença no próprio modelo é tanta que não se adaptam a nada”.

O treinador (Rexach, 2011), explicando o insucesso de Ibrahimovic no Barcelona de Guardiola, refere que “nunca se pode dizer que Ibra seja mau, porque é muito bom. Ele sabe-o e sabe Pep. Porém chega à equipa, Pep começa a dizer faz assim, faz assado e pensa: “o que me diz este tipo se eu sou sempre o melhor”. Ele quer jogar à sua maneira e o Barça é um estilo onde todos têm de interpretar o mesmo futebol. Nós sabemos que primeiro está a equipa e depois nós. Isso está claro para Messi, porque Messi sabe que graças aos seus companheiros é o melhor”. Na opinião de Rexach, “Messi é a pedra filosofal da ideia Barcelonista”.

Ilustração 239 - Carles Rexach, ex-jogador e ex-treinador, totalizando 44 anos ao serviço do F. C. Barcelona.

Na opinião de (Rexach, 2011), o futebol joga-se no pé, quanto menos vezes “despachares” a bola melhor, é sinal que pudeste jogar mais e pudeste passar a bola. No fundo, o que mais me deixa orgulhoso é que se tornou realidade aquilo que pensei em toda a minha vida: que jogando bom futebol também se ganha, que não é necessário “morder, morrer ou confusões”. Que o pequeno também pode jogar estava demonstrado há anos. Olha para Simonsen. Se não jogas bonito, ele não joga. Tenho que crer que as pessoas entenderam… Luís e Del Bosque entenderam-no há anos e entraram nesta viagem do Barça, completaram-no com muitos bons jogadores e ganharam porque jogaram muito bem. A selecção perdeu tempo a falar de fúria, porque a bater e a correr a um alemão, não lhe ganhas, nem antes nem agora. Cansei-me de ouvir: é tão bom, pena que seja tão baixinho. O quê!?”

Segundo o jogador espanhol (Xavi Hernandez, 2011) citado por (Esteves, 2011), “é bom que o ponto de referência para o mundo do Futebol é agora Barcelona, que se trata de Espanha. Não porque ele é a nossa, mas por causa do que é. Porque é um Futebol ofensivo, não é especulativo, nós não esperamos. Sob pressão, você quer posse, você deseja atacar. Algumas equipas não podem ou não passam a bola. O que você está jogando? O que é o ponto? Isso não é Futebol. Combinar, transmitir, reproduzir. Que é Futebol -para mim, pelo menos. Para treinadores, assim, eu não sei, Clemente [Javier] ou [Fabio] Capello, existe outro tipo de Futebol. Mas é bom que o estilo de Barcelona é agora um modelo”.

Na antevisão da final da Liga dos Campeões de 2011 entre Barcelona e Manchester United, (Sá, 2011), regressando ao passado descreve que “em Maio de 2009, já ninguém se surpreendia com o poderio do novo Barça de Guardiola. Porém, uma coisa é ver, outra coisa será sentir. Poderia ser tão diferente, de um ano para o outro, e sem grandes novidades no elenco, aquela equipa que havia sido tão seguramente controlada apenas 1 ano antes? A resposta dada pela final de Roma foi um gigantesco "sim". O Barcelona não ganhou apenas a final, mas dominou-a por completo. O United começou por não conseguir defender, e, quando tentou reagir tacticamente, não só se viu neutralizado ofensivamente, como exposto na rectaguarda. A boa notícia para Ferguson, no final desse embate, foi que aquele Barcelona seria apenas um problema hipotético no futuro. Pois bem, dois anos volvidos, ele aí está de novo”.

O autor (Amado, 2011) sobre o trajecto do Barcelona de Guardiola na época 2010/2011 e comparando-o ao Real Madrid de Mourinho, sustenta que “o campeonato, a prova mais justa para aferir a verdadeira qualidade das equipas, demonstrou já que a diferença entre os dois conjuntos é assinalável. Vencer uma prova a eliminar é uma casualidade que, por o Futebol ser o desporto que é, pode sempre ter lugar. A probabilidade de vitória, porém, continua a pender para os catalães, porque o Futebol que praticam está menos dependente de circunstâncias alheias a si mesmo”. Amado acrescenta que “diz-se normalmente que vitórias morais não servem de nada. Discordo totalmente disto. A moralidade está em perceber que, apesar de não se vencer um determinado jogo ou um determinado troféu, a probabilidade de tal vitória se manteve intacta. E isto só é possível se se mantiver o estilo de sempre”. O autor conclui que “o Barcelona não se vende pelas circunstâncias. Talvez com isso se sujeite a perder um ou outro troféu, face àquilo que o Futebol é, mas estará sempre mais perto de ganhá-los do que os seus adversários. Em competições que dependem menos de jogos circunstanciais, como seja um campeonato nacional, isso é por demais evidente”.

Na época 2011/2012, Guardiola fez evoluir o Modelo do Barcelona. Tendo jogado algumas partidas com 3 defesas, foi no meio-campo, com uma dinâmica menos posicional que no passado que a equipa sofreu algumas modificações mais abruptas. Cada vez mais se sente a cultura da Holanda de 74 na dinâmica da equipa, principalmente em posse de bola. De acordo com Muricy Ramalho, treinador do Santos e após a sua equipa ser derrotada pelo Barcelona no Mundial de Clubes de 2011, citado por (Bouças, 2011), descreve que “o Barcelona joga em 3-7-0. Se eu tentar isso no Brasil me matam”. Neste propósito, Bouças sustenta que “o jogo não mais se resume a um conjunto de jogadores no seu quadradinho, à espera que a bola chegue para individualmente desequilibrarem. E é sobretudo esta mudança de paradigma que vai confundindo os menos preparados. Se um avançado não se limita a esconder-se atrás do defesa, procurando unicamente as solicitações na profundidade, ou a resposta aos cruzamentos, mas antes baixa para apoiar a equipa na fase de construção de jogo, tal não significa que se jogue sem avançado. Se os extremos baixam para receber e procuram o jogo interior em detrimento de inócuas correrias e cruzamentos para os baixinhos, tal não significa que joguem no sector intermédio”. Pedro Bouças acrescenta que “se há quem veja um 3:7:0 no Barcelona, então seguramente que também se poderá falar num 3:0:7. Afinal, quantos jogadores do Barcelona aparecem em penetração nas zonas de finalização? Pensar que o Barcelona joga em tal sistema táctico é uma crença apenas ao alcance de quem ainda vê os médios, ou determinado médio como o principal catalisador no processo de criação de jogo ofensivo. Quando na actualidade, todos devem ser responsáveis por tudo. A bola deve progredir de pé para pé, e é muito mais quem não a tem que deve pensar o jogo. Quantos mais o fizerem, mais opções terá o portador da bola, e mais fácil e imprevisível será a sua decisão”. Em comentário a (Bouças, 2011), (Leão, 2011), descreve que costuma “comparar a mobilidade e a envolvência do Barcelona ao Futsal, ou melhor ao 4x0 do futsal, em que há uma mobilidade constante, um pouco ao estilo do "carrossel" do hóquei em patins. Se considerarmos que há realmente 3 jogadores mais posicionais, os defesas, e tendo em conta o Muricy vem de um país em que a modalidade mais praticada é o Futsal, a ideia de 3x7x0 não é descabida. Claro que 3x7x0, 4x4x2, 4x3x3 (etc.) não são tácticas: são estáticas. E no Barcelona, sete jogadores estão na zona de construção, sete jogadores aparecem na zona de ataque, sete finalizam”.

Na opinião de (Gonçalo, 2012), “o Futebol catalão assenta em predicados intelectuais, numa abordagem diferente e superior ao jogo, rompendo com os requisitos tradicionais para a prática do mesmo sobrepondo-lhe a condição de jogo à de desporto. Os argumentos físicos e técnicos diluem-se no carácter decisivo que a capacidade de deliberar adquire, em torno da qual gira todo este modelo: a necessidade de cada jogador se relacionar da melhor forma com os colegas em função de uma ideia de jogo, assente principalmente em conceitos colectivos, que guia o todo no qual está inserido, obriga-o a depender sobretudo da sua capacidade de decisão, não das características que lhe permitissem vencer mais duelos individuais”.Reforçando esta posição, o autor descreve que “todos os jogadores, ou quase todos, conscientes de que o importante, a cada instante, é tomar a melhor opção possível, impede que assistamos a jogos divididos, ou com uma grande intensidade física. Isto para além de que um jogo baseado em trocas de bolas aparentemente inconsequentes irrita naturalmente os mais pragmáticos e simplistas. É porque o modelo catalão exige dos seus jogadores acima de tudo uma capacidade de decisão óptima que um avançado não se precipita na procura do golo, nem um médio na conquista de uma assistência. Daí que a sublimação dos atributos individuais que permite a cada jogador forçar as conquistas a que cada posição, tradicionalmente, está associada, seja tão irrelevante”.

Para (Gonçalo, 2012), o Barcelona de Guardiola é a manifestação de uma sinfonia sem Maestro”. O autor realça, na sua opinião, que pela primeira vez, “a abordagem ao jogo é despida de funções específicas: não existem uns para defender, outros para marcar, outros para assistir, etc. E, por mais paradoxal que isto possa parecer, alcança-se com o melhor Futebol do mundo, com o que mais encanta, ou assim devia ser, o fim do romance, do misticismo que envolve o Número Dez: Acabou-se o espaço dos jogadores que resgatam a equipa da mediocridade, que pensam, em exclusivo, ou quase, o Futebol do conjunto que o alberga. É, no entanto, uma extinção que serve e sublima a própria génese do conceito, catapultando-o para um “organismo” que o exponencia a limites que o transcendem”.
 
O autor (Amado, 2011), refere que “uma das coisas que tem sido mais debatida sobre este Barcelona tem a ver com a forma mais eficaz para contrariar o seu Futebol. Aliás, a simples discussão acerca deste ponto demonstra o quão diferente é esta equipa. Nunca uma equipa fora alvo de um debate tão amplo acerca das possibilidades estratégicas para a derrotar”. E para Amado, “o melhor método para vencer o Barcelona passa por trabalhar a longo prazo para adquirir uma competência parecida com a dos catalães com bola. Só através dessa competência é possível depois sujeitar os pupilos de Guardiola a um jogo com menos bola do que aquele a que estão habituados. E aí sim, modificando-lhes o habitat, pode um adversário do Barcelona reduzir-lhe as possibilidades de êxito. Não é certo que vença, mas é seguro que torna estranho o jogo ao adversário”.

Na opinião de (Amado, 2012), “que há muitas formas de ganhar e de jogar Futebol parece-me inequívoco. Que haja muitas formas de exercer o tipo de supremacia que o Barcelona de Guardiola exerceu nestes quatro anos é que me parece mais difícil de sustentar”. O autor defende ainda que “é claro que não há um só tipo de Futebol vencedor. Mas há um só tipo de Futebol que, para além de habilitar quem o pratica a vencer, o habilita a ficar na História do Futebol bem acima de qualquer outra equipa”.
Ilustração 240 - Guardiola versão Capela Sistina de Miguel Ângelo por Marcelo Comparini, (Gonzalez, 2012).

“O sistema do Barcelona, por muito que se diga que é complicado, é tão simples quanto ter a bola e tentar que esta não nos seja tirada. Passamos o máximo tempo possível com ela e tentamos marcar”.
(Guardiola, 2013)